Até mesmo o ar filtrado inúmeras vezes e as paredes impecavelmente limpas pareciam mais humanas num momento como esse. Banho tomado, mala pronta, passagem de descida nas mãos. O oficial que assinava as folgas estava bem atrás da próxima porta de vidro. Eram duas semanas inteiras com minha família a apenas alguns passos.
O alarme soltou aquele grito desagradável e rouco. Veio como um susto no meu comunicador. Logo em seguida a voz da comandante Vitória convocava a todos do 32º esquadrão que ainda estavam embarcados. Eu era um deles.
Soltar as botas magnéticas, e dar meia volta em direção a sala de reuniões, foi muitas vezes mais pesado que normalmente. Mas, tecnicamente, ainda estava em serviço e havia pouco que eu poderia fazer senão me apresentar e torcer para ser algo bobo, como uma vistoria de uniformes. Decidi que ainda não ligaria para Carmela. Não queria destruir todo o clima que eu havia criado com a possibilidade de visitarmos terra firme. Ao menos não antes de ter um bom motivo.
Praticamente todo mundo do 32º estava na sala. Vitória com a mesma cara fria e inabalável de sempre. Sua imagem ocupava a parede inteira da lateral direita da sala. Na da esquerda um mapa da Terra marcava um alvo em vermelho no setor que, antes da unificação, era a América Latina. Eu não consiguia lembrar dos nomes nem posição exata dos países. Mas sabia que era no litoral leste, o que dava grandes chances de ser no antigo território Brasileiro.
- Senhores temos uma situação no setor 55 quadrante 21 que exige intervenção imediata da União. Os dados serão enviados para a capitã Stanson e para o sargento Lorenzo. Velocidade é um fator determinante na contenção dessa ameaça. Portanto os senhores descerão no módulo de reentrada rápida. Boa sorte. A União conta com vocês.
A imagem se apagou e a sala ganhou uma ambiência mais sombria. A capitã discutia com Lorenzo, provavelmente analisando os dados e traçando algumas estratégias. Ela não gostava muito de mim. Tinha algo a ver com meu serviço anterior como tropa da corregedoria. O pessoal contava que o marido dela… quer dizer… ex-marido, havia sido processado e preso. Ninguém sabia exatamente o porque. O resto do pessoal não era amigo. Mas não havia inimizade. Só um profundo profissionalismo. Evitávamos falar de nossas vidas pessoais, ou ainda de qualquer coisa que não fosse intimamente ligada ao trabalho. Era melhor assim, eu acho.
- Sr. Holz você será nosso piloto hoje. Srta. Vertov estará nas comunicações. Sr. Jacob fará as honras com a gear. O restante usará equipamento padrão. Aviso a todos que nesta missão o uso de força letal está vetado e só poderá ser usado mediante ordem direta minha. Informados. Estejam prontos em 10. Hangar 2.
Eu não sabia exatamente porque ela me colocou na gear. Mas se era para usar força não letal eu nem entendia o porque de descer uma de qualquer maneira. Eu não ligo, claro. Usar essas armaduras dá uma tranqüilidade muito grande em combate.
A sala de preparo era pequena, como tudo tinha que ser numa estação espacial. Mas suficiente para três de nós nos aprontarmos por vez. Troquei o uniforme pela roupa de conexão com a gear e parti para o hangar.
A mera visão daquela máquina fazia o coração bater mais forte. Uma armadura negra de quase quatro metros de altura com armas o suficiente para devastar um quarteirão. No peito, o símbolo de uma estrela cadente pintado em cinza escuro com três letras “S” estilizadas, formando as palavras Shooting Star Squad 32. Era a única aparição de símbolos em toda sua estrutura. Os músculos de tecido hidráulico lhe davam uma força incomparável. Não parecia, na verdade, uma máquina. Parecia algo biológico, mas, feito de metal e nanopolímeros. A posição dentro dela era confortável, apesar da total falta de espaço. Uma vez na parte interna uma série de protocolos de teste eram feitos. Testes como verificação hermética, disparadores, munição, sistemas hidráulicos, comunicação e sistemas de miras e identificação visual.
O que mais me assustava nessas coisas era o fato de que: seja lá quem estiver dentro delas, fica preso lá. Não tenho como simplesmente abrir uma porta e sair. Uma vez trancadas as fechaduras, um liquido composto de nanorobôs interconecta todas as aberturas externas molecularmente. Ou seja. O piloto fica literalmente selado dentro de uma tonelada e meia de armamento e placas de blindagem de cerâmica.
Os testes foram todos positivos. Agora era rumar até o Hangar. O módulo de reentrada rápida era outro fator que eu odiava nesse trabalho. Era basicamente um ovo de metal e cerâmica arremessado contra o chão, 690km abaixo de nós. Tudo bem que nunca houve um acidente no pouso de um desses. Mas ainda assim… 690km de queda livre rumo a uma desaceleração absurda de mais de 25g por algo em torno de 40 segundos. Não era agradável.
- Lançamento em 2 minutos. Todos em seus postos. A missão aqui é simples senhores. Temos de apaziguar um conflito no setor 55. Tratam-se de civis reivindicando direitos perdidos com a unificação. Portanto, volto a reforçar que força letal somente sob ordens diretas da capitã. Jacob será nossa parede hoje. Os rebeldes estão usando molotovs, pedras e armas improvisadas. Vamos fazer reentrada e pousar no quadrante 21 na região portuária. Temos que percorrer 1km pelas ruas da cidade até o foco de ação. Por favor, cuidado com danos desnecessários a propriedade particular. Não queremos complicações com a capitania local. Especialmente você, Jacob. Temos 2 flutuadores a nossa disposição no lugar. Deve ser suficiente para nós seis.
- Permissão para falar sargento?
- Prossiga Holz.
- A região de pouso pode ser problemática. O aeroporto da cidade fica colado no nosso alvo. Não seria melhor encontrar um lugar mais interno?
- Negativo Holz. O tráfego aéreo vai ser desviado por alguns minutos para nosso pouso. Temos uma janela pequena. Tenho certeza que não é problema para você.
- Sim senhor sargento.
- Jacob. Sua missão hoje é proteção do resto da unidade. Lembre-se que sua gear não está equipada com armas não letais. O resto de nós vamos entrar usando você como cobertura.
- Entendido sargento.
As travas magnéticas do ovo estalaram e podíamos sentir o empuxo trepidando as vigas de suporte. Em breve a antiga cidade do Rio de Janeiro, hoje quadrante 21, vai poder nos ver descendo a 26mil km/h como uma estrela cadente cortando os céus. A luz gerada pelos propulsores vai nos fazer ficar mais brilhantes que qualquer estrela no firmamento. Eu tinha certeza que só o rastro de gás e vapor deixado nos céus seria o suficiente para fazer os tais rebeldes repensarem se valia, realmente, a pena ficar por ali. Era para isso que eu tinha me alistado. Fazer parte de um S3 era uma honra. O dever de manter paz num mundo multifacetado de milhares de microgovernos e corporações fazia com que eu me sentisse útil mediante toda aquela grandiosidade. Mas o que mais me perturbava no momento, era ter esquecido de ligar para Carmela.
Tags: Cyberpunk, estação espacial, rebeldes, Rio de Janeiro

#1 written by Miguel May 30th, 2009 at 13:45
Gostei. Muito bom mesmo – tive muita facilidade de visualizacao.
Achei legal a ideia do liquido de nanorobos – me fez pensar em mais tecnologias doidas
.
O que acha de mudar de “esquadrao 32″ para “32o esquadrao”? Acha que ficaria melhor? Assim o pessoal refere-se como “o trigesimo segundo”, ao inves de “o trinta e dois” (ou a intencao ja era essa? Entao coloca um indicador de ordinal la
).
Outro aspecto que gostei bastante foi o lado “pessoal” da narrativa – nao eh so uma descricao de procedimentos, tecnicas e tecnologias, um “setting” futurista, etc. Tem um lado que seria comum em qualquer lugar com seres humanos, seja numa estacao espacial, navio pirata no seculo 17 ou antigo Egito.
[]s,
M.
PS: Nao configurei acentos e Co. aqui em casa, entao eh isso ai, o portugues ficou na merda
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