Poucos metros a frente, a saída do complexo ainda estava livre. Não tinha dado tempo suficiente para que os soldados fechassem as cancelas. Contudo podia notar que as luzes vermelhas intermitentes já alarmavam os motoristas sobre o início de uma manobra de fechamento de emergência dos portões.
Passou rumo a liberdade e ao ar um pouco menos viciado das ruas externas do Centro da Cidade sem muito problemas. Pelo retrovisor podia ver os longos braços de aço pintados de amarelo com listras pretas descendo das laterais do último portão. Dentro do túnel, que agora ficava para trás, a fumaça causada pelos disparos elétricos e pelas sucessivas colisões dos veículos, vazava e ganhava forma do lado de fora. Havia conseguido passar com folga. Contudo, o seu perseguidor de moto também foi capaz de passar antes de ser trancado no interior do Mercado.
A camada do Metaphora que ele estava usando não lhe permitia identificar o modelo da moto apenas olhando para ela. Na verdade ele apenas adivinhava que era uma moto pelo formato retangular mais fino que o dos outros veículos. Pediu que o computador a identificasse. A resposta veio dura e fria: modelo desconhecido.
Assim como sua própria moto, ele desconfiava que aquela que o perseguia era um modelo fabricado sob encomenda. O que significava duas cosias: seja lá quem fosse que estava atrás dele, não era de nenhum órgão oficial; e; tinha potência suficiente entre as pernas para conseguir manter a distância entre eles.
Um novo pedido de link de comunicação piscou no canto superior de sua visão. Jogou-o novamente para o lado. A silhueta do gigantesco superedifício Arco 1 cobria totalmente a linha do horizonte a sua frente. A Torre da Central e seu relógio pareciam uma pequena maquete frente a imensidão daquela pirâmide de aço e vidro. Era seu destino. Ainda tinha bastante tempo, o contador marcava 34 minutos. Mas, precisava despistar seu perseguidor. Não sabia exatamente o que ele queria. E, a última coisa que pretendia era perder tempo descobrindo.
Subiu o máximo que podia usando as passagens de andares laterais das pistas suspensas da Av. Presidente Vargas. Estava no quarto andar envolto em um mar disforme de centenas de cores e formas. Mais uma vez o frenético balé por entre os veículos começava.
Ao seu lado direito uma composição de monotrilho acelerava rumo ao Arco 1. Em sua mente acreditava que era uma tentativa, em vão, de passar a sua frente. Naquele momento o ganho de velocidade e o empuxo causado pelo absurdo aumento da aceleração causaram nele aquela sensação que tanto adorava. Para ele, era como um transe. Gostaria de manter aquela pressão no seu corpo para sempre. Mas sabia que a entrada do edifício em breve o engoliria e jogaria em uma versão ainda mais caótica de trânsito. Seria impossível manter a velocidade, que agora marcava 284km/h, dentro daquele inferno de curvas e sinais de trânsito. A rota traçada pelo computador ia reta até a porta de entrada do lugar. Uma vez lá dentro, a linha branca que marcava o percurso parecia mais os traços de um desenhista surrealista que qualquer outra coisa. Preferiu desligar a camada do metáfora e examinar o que realmente estava a sua volta. A massa de veículos era tão semelhantes entre si que davam a impressão dele ainda estar usando alguma camada de superposição para facilitar a visualização. Era um sentimento estranho que ele odiava. A uniformização de tudo que o cercava o oprimia.
Reparou que a moto que o seguia estava agora ao seu lado esquerdo. Desviava tão habilmente dos veículos quanto ele. Definitivamente não se tratava de um amador. Reparou na parte de trás do capacete amarelo o desenho, em vermelho, de um coração estilizado. Da jaqueta saíam inúmeros cabos de fibra ótica, que ligavam os sistemas de manobra e implantes ao corpo da motocicleta. Eventualmente, quando acelerava ou freava, notava as fumegantes entranhas dos cabos sólidos da bateria e os reguladores de voltagem do motor incandescentes. A moto ao lado também sofria com o esforço de manter a aceleração absurda que alcançavam nas retomadas. As fagulhas dos freios magnéticos saltavam das rodas. Discos de aço tentavam segurar as centenas de quilos de metal e polímeros que voava por sobre o asfalto a quase 300km/h. As agarras hidráulicas do sistema de suspensão injetavam, sem piedade, ar comprimido e fluido dentro dos pistões e molas dinâmicas. Todos os sistemas trabalhavam ao máximo. Tudo na esperança de impedir que uma colisão transformasse os pilotos e suas máquinas, em uma nuvem incendiária de destruição e morte.
Ele sabia que devia começar a desacelerar antes que chegasse a entrada. Sabia que uma vez dentro do edifício, um labirinto de curvas e ladeiras surgiria sem muito aviso, e que nem mesmo todos os acessórios e modificações corporais, seriam suficientes para trafegar entre tamanha quantidade de obstáculos. Mas, naquele momento, entrar em Arco 1 antes do monotrilho e, especialmente, antes da moto ao lado, era sua tarefa mais urgente. Acelerou ainda mais.
Entrou nas ruas internas de Arco 1 a uma velocidade muito além da permitida. Não pelas regras do arcology, mas pelas próprias leis da física.
A curva que fez a direita, não foi por escolha. Era a única que conseguiria fazer sem ser atirado longe numa tangente mortal contra uma das muitas lojas ou letreiros luminosos. Ao menos, havia chegado no interior da construção antes de seu perseguidor e do monotrilho. A rota feita pelo computador ganhou uma cor azulada. E um traço dinâmico mostrava onde ele deveria passar para que voltasse ao rumo traçado previamente.
Dentro do arcology, a velocidade média de todo o fluxo de veículos caiu vertiginosamente. Apesar do volume do trafego ser completamente absorvido pelas dezenas de possibilidades de pista, as regras exigiam que mantivessem não mais que 70km/h no interior do prédio. Automaticamente os sistemas de direção, de todos os veículos, mudou a distância mínima de segurança entre eles para uma bem menor. O espaço que usava para costurar por entre os carros era praticamente inexistente agora. Tinha que desacelerar e tentar seguir seu caminho da maneira mais rápida possível. 34 minutos e, contando.
Após algum tempo subindo o mais rápido que conseguiu pelas pistas até os elevadores. Passou pelo ponto de controle estipulado. Fez uma volta a esquerda e parou no local. E lá estava ele. Um pequeno sensor enfiado entre duas placas de concreto, pouco antes da pastelaria do Marinho. Encostou a moto e o ativou. Um feixe de luz saiu reto do mecanismo de leitura. Prontamente esticou as costas da mão até a luz. O código holográfico desenhando em sua luva foi lido, e, o aparelho voltou a escuridão de sua parede. Seguiu alguns metros pela ladeira de acesso aos terminais pessoais do edifício. O portão pantográfico de metal subiu formando um rolo na parte de cima do pequeno quarto. Estacionou a moto em uma das duas possíveis vagas e, saiu para verificar como sua máquina respondeu ao estresse da corrida.
As baterias estavam em ordem. Ainda quentes e com a carga em apenas 4%. Ligou o carregador ao cabo que esticou da estação de recarga na parede. Entrou novamente com o código impresso em sua luva. As luzes do terminal acenderam indicando que a energia começava a fluir. Agora era esperar a meia hora necessária para elevar as baterias novamente até 100%. O motor estava nitidamente abalado. Algumas marcas negras mostravam por onde as faíscas do disco elétrico saltavam quando as placas de contenção se expandiam com o calor. Teria de desmontar tudo, limpar, lubrificar e trocar alguns reguladores. Nada muito caro nem muito trabalhoso. Ficou mais aliviado com o diagnóstico.
O contador regressivo, agora parado, marcava: 31 minutos 42 segundos em letras verdes intermitentes. Havia batido seu recorde. Sentia uma sensação de felicidade e realização. Estava na hora de verificar na rede, se todo aquele trabalho tinha servido para algo.
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