Estou na empresa já faz quinze anos. O pessoal até gosta de mim. Como pessoa, claro. Como funcionário… bem… aí a coisa complica um pouco. Eu sei que não sou o mais brilhante e trabalhador por aqui. Mas convenhamos, é uma empresa de marketing e propaganda, eles não empregam exatamente gênios. Precisa de provas? Liga em qualquer canal e assiste ao trabalho desses caras. Já viu as propagandas de alvejantes de roupas, pastas de dentes e desinfetantes para privadas? Os caras fazem qualquer porcaria! E chamam a mim de ”limitado”.
O que acontece é que, como eu disse, eu sou realmente ruim no que faço na empresa, seja lá o que for. Me contrataram como redator. Mas meus textos eram muito fracos. Me jogaram para pesquisa. Eu nunca terminava as análises na data de entrega. É coisa complicada. Fórmulas e gráficos. Muito trabalho para mim. Aí me alocaram no laboratório de imagem. Até que eu gostava de lá. O ar condicionado era sempre bem forte. E claro, tinha a Carlinha do meu lado… Para ficar do lado da Carlinha eu até trabalhava direitinho. Mas aí a Carlinha foi para outra empresa. Levou com ela toda minha capacidade produtiva. Resultado: me jogaram em vendas. Quem sabe eu não conseguia me sair melhor no setor de vendas? Pois é… não muito. E foi assim que eu acabei aqui onde estou agora. Diretor de Gestão Criativa. Eu não faço idéia do que eu tenho que fazer diariamente. E tenho quase certeza que esse título é um bando de palavras que num dizem nada. Mas, pagam meu salário todo mês. Me deram até um aumento! Não sou eu quem vai reclamar.
A empresa é do Arnaldo. O cara sim era genial. Mas hoje em dia ele nem encosta no processo criativo. Fica lá na sala dele. Atendendo telefone e assinando papel. Quase o mesmo que eu. Com a diferença que, praticamente, ninguém liga para mim. O irmão dele, o Roberto, tem uma empresa de arquitetura e engenharia logo no andar de cima. No início os dois mantinham uma certa competição, para ver quem se dava melhor nos negócios. As coisas ficaram pretas nos primeiros anos. O pessoal virava noite quase toda semana. Mas, depois de uma década, foi acalmando, foi amenizando e hoje a briga não é mais tão feroz quanto era antes. Quer dizer… tem os jogos de domingo.
Todo domingo o time de seis pessoas aqui da empresa joga um futebolzinho com o pessoal lá do Roberto. Acho que essa pelada é que alivia um pouco o clima. É nesses jogos que o pessoal resolve a competição agora. Faça chuva ou faça sol os times estão sempre aqui. O campo é semi-profissional. De grama, claro. Fica num clube no Flamengo.
Eu jogo há três anos. Sou atacante no nosso time. E para falar a verdade, sou o cara que sabe jogar. Estrela mesmo. Marco um ou dois gols por partida. Desde que eu entrei no time, só perdemos umas duas vezes e no geral meus gols determinam nossa vitória. O resto do time é bem fraco. São um bando de pernas de pau para ser sincero.
E é exatamente nesse momento, que tudo se encaixa na minha cabeça. Eu aqui com a bola nos pés. Cobrança de falta pertinho da área. O Robertão já tá em pé na lateral, mordendo as juntas dos dedos. Ele sempre faz isso quando fica nervoso. A barreira, para variar, tá muito para esquerda e fechando a visão do goleiro.
É nesse momento, decisivo, que tudo faz sentido. Que Diretor de Gestão Criativa que nada. Quando me perguntam o que eu faço para viver, eu respondo sem hesitar: sou jogador, profissional, de futebol.
E é gooooollllll!
Tags: futebol

#1 written by Sandro May 14th, 2009 at 00:23
Caralho!!! Muito foda!!! Mandou muito bem!
#2 written by Eduardo May 14th, 2009 at 02:28
Isso mostra o quanto se arriscar pode ser positivo. Golaço!
#3 written by Castelo May 16th, 2009 at 11:50
Aí isso aí parceiro, nem sempre as coisas exatas são as mais certas. Também escrevo meus rascunhos, mais ainda não tenho coragem para publicá-los… quem sabe um dia.
Mantenha o blog, estarei sempre acompanhando. Bola pra frente e qualquer coisas estamos aí! Selva!