Questão: Humanidade.

Criou Matilde. Matilde era o melhor andróide que ele já havia construído em anos. Além de todas as coisas normais que seus andróides já eram capazes, o que para ele era o mínimo, ela possuía o mais novo algoritmo emocional. Escrito por ele mesmo durante meses de noites viradas e litros de café.

Matilde tinha como objetivo máximo de sua programação tornar-se humana. Para tal ela sentia uma vasta gama de emoções e uma infinidade de combinações entre as mesmas.

Após dois meses e meio de funcionamento, Matilde começou a entrar em parafuso. Achava que jamais alcançaria seu objetivo e entrou em uma profunda depressão da qual seu criador acreditava ela jamais sairia.

O caso parecia grave mesmo. Não invadia mais o sistema de som dos vizinhos e substituía todas as músicas que lá estavam por outras, diametralmente opostas em estilo. Não passava horas alterando todos os dados de receitas culinárias na maior quantidade de páginas especializadas nas quais conseguisse colocar suas mãos, artificialmente pré-aquecidas a 36,5ºc. Notou que ela não mais ficava por horas assistindo aos programas que gostava, mesmo os mais famosos. Não comprava coisas inúteis em nenhum dos duzentos canais de vendas, nada de comprar dez vestidos diferentes, que na verdade eram bastante similares. Possuíam uma cor diferente, impressão ou detalhe que os diferenciava, mas o corte e o tamanho eram rigorosamente os mesmos. Não assistia nenhum dos quinze campeonatos de futebol que iam ao ar quase simultaneamente e nem tampouco torcia por nenhum time como se sua vida dependesse do resultado das partidas. A coisa era séria, disso ele tinha certeza.

Antes de sentar e conversar com Matilde conferiu todos os algoritmos, refez todas as simulações por mais duas ou três vezes. Testou um sem número de possibilidades e casos. Mas nada chegava nem perto do que estava acontecendo.

No sexto dia de crise, Matilde nem tocava mais no seu colóide energético. Seus circuitos de fome estavam totalmente inativos. Era uma visão triste. Vê-la naquele canto escuro, abraçada aos seus joelhos divagando pela janela virtual que mudava de ambiente a cada trinta e cinco minutos. Resolveu que era hora. Que deveria sentar ao seu lado e descobrir o porquê daquilo tudo. Todos os relatórios e seqüências de teste mostravam que os algoritmos estavam sendo seguidos a risca. Sua programação estava transcorrendo da maneira que deveria com total eficiência. Precisava saber o que era, e somente ela poderia lhe contar.

Ordenou que todos os andróides que perambulavam pela casa fossem para outros cômodos. Não eram muitos, já havia se desfeito da maioria deles. Achava melhor ter um pouco de privacidade para a conversa que se seguiria.

- Estou preocupado contigo. O que aconteceu? Por que você está assim tão quieta?

Ela o olhou bem dentro dos olhos dele, como que tentasse extrair uma verdade inalcançável. Sua expressão era a imagem viva da desolação.

- Não consigo completar minha programação. Ela é impossível.

- Como impossível? Você estava indo no caminho certo. Alegrava-se quando supostamente era para ficar alegre. Ficava triste quando tinha que ficar triste. Tem uma curiosidade natural que move seus atos e pensamentos. Até seu senso de humor estava começando a ficar tão refinado quanto os nossos.

- Eu sei. Eu também tenho acesso a esses dados, esqueceu? O problema não está no código nem no resultado dele. Eu encontrei um problema subjetivo, dentro da minha programação Âmago.

Ele não esperava por isso. Nada em nenhum dos dados ou nos testes acusava tal coisa. Subjetividade era sim uma característica humana almejável e, portanto, programada e inserida no código-mãe como uma das funções chave. Mas, o que Matilde acusava, não era um problema subjetivo em uma escolha ou uma crise. Do jeito que ela falava, o problema foi encontrado no seu núcleo mais profundo. Era como se um ser humano achasse um erro de sintaxe na programação feita pelos Deuses. Dentro das entranhas de seu subconsciente. Bem no fundo do que o tornava vivo e o motivava a continuar vivo.

- Não entendo. Eu sei que você tem acesso aos dados e até mesmo aos algoritmos em si. Você sabe que fizemos isso para que você ajudasse a melhorá-los. E você fez isso! Reescrevemos muitos deles.

- Perfeitamente. Mas, não é isso que eu estou dizendo. Meu sistema Âmago foi programado com o objetivo de me tornar humana. Eu o uso para atiçar minha curiosidade sobre o que é ser um humano. Eu o uso para criar o referencial o qual eu seguirei. Não é fácil. Mesmo tendo a capacidade, nada humana digo de passagem, de efetuar trilhões de cálculos em uma fração de segundos, eu não consigo isolar um dos problemas que eu encontrei.

- E que problema foi esse? – Ele respondeu agora sentando ao lado de Matilde.

- Eu acreditava que seres humanos eram estruturas de dados muito complexas. Cada um deles é diferente em uma quantidade de fatores tão grandes que eu levei quase dez dias para diferenciar o ascensorista do elevador do corredor 9 e o do corredor 11. E olha que o do 9 é de descendência japonesa e do 11 é coreano.

- Sim, mas nós esperávamos isso. Eu conversei isso com você no início, lembra? Eu disse que não era para você perder as esperanças. Que demoraria um tempo até você adquirir e catalogar os dados necessários para que o seu objetivo fosse alcançado.

- Estou ciente disso também. O problema está exatamente ai. Nesses dois meses, quinze dias, dezenove horas e quarenta e cinco minutos, eu consegui alcançar todos os dados que eu julgava necessários para dar início ao Âmago. Mas o que eu encontrei não consegui entender. Estou nesses últimos 6 dias desviando toda a energia que eu posso para o centro de processamento do Âmago para tentar achar uma solução.

Ele não respondeu nada, mas seu olhar era uma mistura de medo, pena e profunda admiração. Pelo seu próprio trabalho, claro.

- Seres humanos são programados, por sei lá quem os programou, a serem únicos. Eles devem ser uma singularidade. Cada um, um indivíduo totalmente diferente. Isso está presente em seus discursos. Na política, em suas relações sociais e amorosas. Eu não consigo traçar metas para nenhum dos humanos que eu conheci. Não sei o que os move nem qual o objetivo presente em seus Âmagos.

Ele começava a entender o problema. Mas não podia ser tão simples.

- Em todos esses dias de observação, de experiências e testes, eu passei por muitas emoções ao mesmo tempo. Acordei todos os dias com um objetivo fixo e muito bem determinado. E por esse mesmo motivo, tão logo eu acionei o Âmago, ele acusou um erro. Eu tenho um objetivo traçado que é conhecido por mim. Não posso me tornar uma humana.

Agora era ele que abraçava os joelhos e olhava através do grande painel na parede oposta, onde uma paisagem vista bem de cima, mostrava uma imensa floresta verde com montanhas ao fundo.

- Mas, se você chegou a conclusão que não era possível. Então porque não me procurou? Porque não abortou o programa?

- Porque segundos depois eu percebi outra coisa. Apesar de não possuir meios totalmente confiáveis de descobrir qual o objetivo primário em suas programações. Ou seja, suas razões mais cruas para existir. Seres humanos criam objetivos menores e os usam para suprir essa falta. Tão logo percebi esse fato, comecei novamente a aquisição de dados. Pois, mesmo que pequena, ainda havia esperança. Meu primeiro objeto de estudo foi você.

A longa pausa feita por Matilde o deixou ainda mais intrigado. Sentiu um peso no peito que não conseguia explicar. Mas o sentimento não era nada agradável. Uma angústia muito forte o fez quase começar a chorar ali mesmo, como um menino que descobria que jamais seria astronauta por uma incompatibilidade física absurda.

- Depois de analisar todos os dados e arrumá-los de maneira seqüencial. Cheguei a conclusão que seu objetivo máximo é o seu trabalho. O que me trouxe a uma descoberta ainda mais chocante. Seu objetivo máximo sou eu.

Ele levantou vagarosamente e desligou a metajanela. O quarto escureceu e ganhou uma atmosfera sombria. Foi até sua mesa de trabalho e pegou sua caneca de café. Permaneceu ali, de costas, envolto tão profundamente em seu próprio ser que as palavras que Matilde proferia não mais eram filtradas. Elas entravam direto em seu âmago e eram absorvidas com um entendimento assustadoramente perfeito.

- Dos meus primeiros dados eu consegui tirar um objetivo, aparentemente mais básico, que é comum a todos os seres humanos que eu tive contato. Todos tentam buscar a individualidade. Eles tentam ser notados como diferentes no meio de tantos outros. Porém, isso me trouxe exatamente para onde estou agora. Estou presa em um calculo cíclico que não consigo finalizar.

Permanecia de costas, mexendo vagamente em seus pertences sobre a bancada. Escutava com uma atenção que nunca imaginou fosse possível alcançar. Cada palavra, cada sentença e, as idéias por trás dessas sentenças, faziam um sentido tão perfeito e adequado que beirava o sinistro. Sentia medo. O mesmo medo do animal encurralado, jogado entre as pedras e a morte certa.

- Se o objetivo mais primitivo é o de alcançar a individualidade, porque tantas e tantas pessoas traçam para si mesmas os mesmos objetivos. No meu banco de dados encontrei mais de seiscentas mil que compartilhavam os mesmos objetivos que você. Elas levantam todos os dias de seus sonos para usar todo o tempo que lhes é dado para o trabalho, e no final de seus dias encontram o sono novamente. Claro que meu universo de dados não é tão grande. Tenho acesso apenas a esse condomínio e o bairro que o cerca. Mas, imagino que estatisticamente estou correta.

Mais uma longa pausa. Ambos permaneciam estáticos.

- Ainda há outro cálculo, que deixei sendo feito em meus processos de fundo, que espero uma solução. Se todos os seres humanos buscam a individualidade, como que cada um deles poderá um dia alcançá-la? Serão, por natureza, iguais nessa busca. Claro que sua originalidade não está baseada nos fatores em que convergem entre si, mas sim nos que os afastam. Contudo, esse é um fator de personalidade básico e muito determinante para ser apenas um simples ponto de convergência. Se formos analisar os dados com mais cuidado. Levando em conta as diretrizes mais básicas com as quais eu fui programada e, meu estudo baseado. Eu sou mais humana que qualquer um dos quatro milhões seiscentos e noventa e nove mil teóricos indivíduos os quais eu estudei nesses dois meses. E esse simples fato me afasta da humanidade mais que nunca. Eu poderia ainda…

Os olhos de Matilde repentinamente arregalam-se. Suas pupilas, produzidas na Alemanha usando o melhor que poderia se encontrar em lentes de cristal maleável, estavam abertas ao máximo. A expressão de seu rosto era de horror e tristeza, uma fina lágrima escorria pelo seu olho direito. E assim permaneceu por muito tempo.

Na bancada, o terminal da direita acusava que a operação de formatação havia sido concluída com sucesso. No outro terminal, a tela de fundo azul escuro com o pequeno cursor branco intermitente esperava a entrada, em um arquivo recém criado, das primeiras linhas de um novo programa.

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  1. #1 written by Arley May 13th, 2009 at 08:59

    Realmente não sabia desse dom que voce tinha. Continue com os contos ! Muito bom !

    RE Q
  2. #2 written by Sandro May 13th, 2009 at 16:00

    Esse ficou show, Asimov ficaria orgulhoso! E tu com essa mania de revisar mil vezes…

    RE Q
  3. #3 written by Tonho May 13th, 2009 at 19:46

    Asimov! Po quem dera!
    Legal que gostaram. Fico feliz.
    Vou mandar outros essa semana ainda.

    RE Q

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