Sua atenção era absoluta. Inspiração e expiração em um perfeito ciclo, sincronizados em uma estranha simetria com os batimentos de seu coração. A lupa dividia o espaço em real e místico. Sob seu olhar cuidadoso, minúsculas peças eram encaixadas em excelência umas sob as outras, em paralelo ou ligadas por braços e engrenagens insignificantes ao olho nu.
Sabia que o processo era tão importante agora quanto fora na confecção das peças. Sabia que o forjar daquelas entranhas, tão pequenas, havia sido perfeito. O metal, de um prateado reluzente, continha as quantidades exatas de cada parte da liga. Da exata maneira que seu pai lhe ensinou quando ainda era um moleque. A receita especial de sua família, que foi passada de geração para geração, de artesão a artesão há incontáveis séculos passados, ainda era perfeita para seu uso.
Sentia orgulho do que via ampliado centenas de vezes a sua frente sob a luz feroz da luminária da lupa. Era certo que ele havia refinado até os traços mais complexos da arte de seus antepassados. A evolução veio com a necessidade trazida pelo mundo moderno. Os antigos instrumentos, brutos e pesados, haviam sido trocados por esses minúsculos mecanismos infinitamente mais precisos. Mas, nem por isso, menos eficazes.
Suas mãos, já enrugadas pelo tempo, ainda se mantinham firmes como as de um cirurgião treinado. Carregava na pinça as peças ordenadas na pequena bandeja forrada com um lenço de seda branco. Eram então despejadas nas minúsculas entranhas metálicas, agora quase completas, da peça sextavada. A ordem era precisa, o encaixe era tão perfeito que uma vez colocadas, jamais seriam removidas, jamais quebrariam ou teriam sequer o mínimo desgaste. Não era o trabalho de precisão nem a atenção e o foco sobrenatural que o exauria. Sua obra não era um mero artesanato. Nem, tão pouco, uma simples máquina ou um medíocre item para vender a turistas. Aquilo era magia. Ele depositava um pouco de sua própria alma em cada uma de suas criações. Dava a elas habilidades inesperadas, fantásticas. Necessárias.
Os poucos que o procuravam sabiam de sua habilidade fora do comum. Sabiam que se precisassem de um produto de qualidade, ou que tivesse alguma característica especial, o Suíço era o homem a se procurar. Conheciam, contudo, seu preço. E este também não era desse mundo.
Mais uma pequena engrenagem era ligada a um enorme e complexo sistema. Mais um minúsculo braço prateado era, delicadamente, encaixado entre os pinos e alavancas. Estava finalmente completo. Fechou o cilindro sextavado com a fina tampa rosqueada, criada com o mesmo metal do resto do objeto todo. O exterior era, apesar de bem polido, coberto por uma quase imperceptível escrita rúnica. Formava uma espiral onde seus seis braços, criados por dizeres ancestrais, encontravam-se com exatidão no meio da peça. Unidos cuidadosamente com o torcer de uma engrenagem, algumas vezes maior do que suas irmãs no interior do hexaedro.
De dentro de uma caixa de madeira de aparência ancestral, o Suíço retirou a primeira parte de seu trabalho. O esqueleto de um estranho revolver. Devia de ter seus quase trinta centímetros de comprimento entre cabo e cano. Tinha uma aparência robusta. A estranha escrita podia ser vista por todo seu corpo. Várias runas acompanhavam o cano da base até a mira em uma espiral que serpenteava em volta do metal e culminava bruscamente na escuridão do orifício da arma.
Ele encaixou o tambor, acertou os parafusos no lugar, e com a arma sobre a mesa de trabalho, começou a chafurdar pelas gavetas a última peça que faltava. E lá estava. Os lados gêmeos que esconderiam mais das minúsculas vísceras mecânicas no interior do cabo. Eram feitas de um material branco que lembrava marfim. O polimento era tão perfeito que dava a falsa impressão de que algum tipo de verniz havia sido usado. O símbolo do contorno de uma espada sobre um escudo era a única mácula na brancura do acabamento. Era uma parte de extrema necessidade a obra. Afinal, que tipo de artesão não assinaria suas próprias criações?
Depois de alguns encaixes e ajustes a peça estava completa. Girou o tambor vazio e esperou que o movimento parasse por si só. Da prateleira que bordeava a parte de cima de sua mesa, buscou uma segunda caixa de madeira e a colocou ao lado da arma. Dentro havia quase uma centena de cartuchos com suas partes anteriores voltadas para cima, mostrando a pequena circunferência de metal mais escuro das espoletas. Uma fina e leve escrita contornava todo o perímetro de cada uma das balas. Estavam classificadas individualmente em uma matriz formada por várias divisões quadradas de papel. Separadas por tamanho, calibre e qualidade. Precisava das que ele chamava de “especiais”. Eram fabricadas ali mesmo, por ele, com as mesmas técnicas e cuidados com que fazia as armas. Escolheu seis do canto esquerdo superior e as carregou no tambor do revolver. O peso da arma quase que duplicou.
No quarto ao lado de sua oficina ficava o pequeno depósito. Uma forja onde preparava os metais necessários para cada trabalho. No canto da sala, um grande bloco retangular de barro. Mirou com cuidado bem ao centro e disparou. O barulho que explodiu da arma era desproporcional ao tamanho da mesma. Um desavisado que estivesse passando pelos corredores, acharia que eram disparos de uma espingarda ou mesmo algum tipo de explosivo maior. Olhou bem para a arma, sentiu a temperatura do cano. E com um pequeno sorriso de canto de boca disparou cinco vezes seguidas. O quarto tremia a cada puxada de gatilho, algumas peças e ferramentas chacoalharam de suas superfícies e pararam no chão. A pouca iluminação era trocada pelos lampejos intermitentes dignos de uma tempestade de trovões. Ao final, as pequenas runas da arma emitiam uma fraca pulsação de luz avermelhada, como se o metal na qual foram escritas estivesse agora vivo e acordado com o calor dos disparos. O bloco de barro no canto da sala jazia no mesmo lugar que estava antes. Agora com seis crateras em sua lateral e um fio de fumaça negra saindo de cada um deles.
De volta a sua oficina, ele escolheu uma caixa nova de madeira. Testou para ver se o tamanho é suficiente para armazenar o revolver. Da bandeja onde as pequenas entranhas mecânicas saíram ele trouxe o fino lenço de seda branca e envolveu a arma. Fechou a caixa com uma pequena chave dourada e puxou o celular do bolso.
- Boas notícias meu rapaz, aparentemente você tem uma nova arma. – Desliga o aparelho e o sorriso de felicidade pelo trabalho bem feito é substituído pelo peso do cansaço e de uma certa culpa. Seu pai sempre dizia que essa culpa era parte do preço. A dúvida e o medo de que tal artefato, tal poder criado e aperfeiçoado por ele não cairia nas mãos de um qualquer. Ou pior, nas mão erradas. Mais que tudo, a certeza de que cada vida que,seja lá quem apertasse o gatilho tirasse, tinha um pouco de seu próprio dedo. Essa culpa não podia ter um preço material. E não tinha.
Ele desligou as luzes da oficina e foi em direção ao seu quarto, a sua cama. No caminho, tentava acalmar sua amargura pensando apenas no pagamento que receberia no dia seguinte. Imaginava quanto tempo ele mesmo viveria enquanto se mantivesse no negócio. Nessa noite, ele não sonhou.
