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	<title>Verbonautas</title>
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	<description>A válvula de escape entre vários universos</description>
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		<title>O Suíço</title>
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		<pubDate>Thu, 15 Oct 2009 21:44:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Tonho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[O primeiro criado em um novo universo.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p id="parag">Sua atenção era absoluta. Inspiração e expiração em um perfeito ciclo, sincronizados em uma estranha simetria com os batimentos de seu coração. A lupa dividia o espaço em real e místico. Sob seu olhar cuidadoso, minúsculas peças eram encaixadas em excelência umas sob as outras, em paralelo ou ligadas por braços e engrenagens insignificantes ao olho nu.<span id="more-105"></span></p>
<p id="parag">Sabia que o processo era tão importante agora quanto fora na confecção das peças. Sabia que o forjar daquelas entranhas, tão pequenas, havia sido perfeito. O metal, de um prateado reluzente, continha as quantidades exatas de cada parte da liga. Da exata maneira que seu pai lhe ensinou quando ainda era um moleque. A receita especial de sua família, que foi passada de geração para geração, de artesão a artesão há incontáveis séculos passados, ainda era perfeita para seu uso.</p>
<p id="parag">Sentia orgulho do que via ampliado centenas de vezes a sua frente sob a luz feroz da luminária da lupa. Era certo que ele havia refinado até os traços mais complexos da arte de seus antepassados. A evolução veio com a necessidade trazida pelo mundo moderno. Os antigos instrumentos, brutos e pesados, haviam sido trocados por esses minúsculos mecanismos infinitamente mais precisos.  Mas, nem por isso, menos eficazes.</p>
<p id="parag">Suas mãos, já enrugadas pelo tempo, ainda se mantinham firmes como as de um cirurgião treinado. Carregava na pinça as peças ordenadas na pequena bandeja forrada com um lenço de seda branco. Eram então despejadas nas minúsculas entranhas metálicas, agora quase completas, da peça sextavada. A ordem era precisa, o encaixe era tão perfeito que uma vez colocadas, jamais seriam removidas, jamais quebrariam ou teriam sequer o mínimo desgaste. Não era o trabalho de precisão nem a atenção e o foco sobrenatural que o exauria. Sua obra não era um mero artesanato. Nem, tão pouco, uma simples máquina ou um medíocre item para vender a turistas. Aquilo era magia. Ele depositava um pouco de sua própria alma em cada uma de suas criações. Dava a elas habilidades inesperadas, fantásticas. Necessárias.</p>
<p id="parag">Os poucos que o procuravam sabiam de sua habilidade fora do comum. Sabiam que se precisassem de um produto de qualidade, ou que tivesse alguma característica especial, o Suíço era o homem a se procurar. Conheciam, contudo, seu preço. E este também não era desse mundo.</p>
<p id="parag">Mais uma pequena engrenagem era ligada a um enorme e complexo sistema. Mais um minúsculo braço prateado era, delicadamente, encaixado entre os pinos e alavancas. Estava finalmente completo. Fechou o cilindro sextavado com a fina tampa rosqueada, criada com o mesmo metal do resto do objeto todo. O exterior era, apesar de bem polido, coberto por uma quase imperceptível escrita rúnica. Formava uma espiral onde seus seis braços, criados por dizeres ancestrais, encontravam-se com exatidão no meio da peça. Unidos cuidadosamente com o torcer de uma engrenagem, algumas vezes maior do que suas irmãs no interior do hexaedro.</p>
<p id="parag">De dentro de uma caixa de madeira de aparência ancestral, o Suíço retirou a primeira parte de seu trabalho. O esqueleto de um estranho revolver. Devia de ter seus quase trinta centímetros de comprimento entre cabo e cano. Tinha uma aparência robusta. A estranha escrita podia ser vista por todo seu corpo. Várias runas acompanhavam o cano da base até a mira em uma espiral que serpenteava em volta do metal e culminava bruscamente na escuridão do orifício da arma.</p>
<p id="parag">Ele encaixou o tambor, acertou os parafusos no lugar, e com a arma sobre a mesa de trabalho, começou a chafurdar pelas gavetas a última peça que faltava. E lá estava. Os lados gêmeos que esconderiam mais das minúsculas vísceras mecânicas no interior do cabo. Eram feitas de um material branco que lembrava marfim. O polimento era tão perfeito que dava a falsa impressão de que algum tipo de verniz havia sido usado. O símbolo do contorno de uma espada sobre um escudo era a única mácula na brancura do acabamento. Era uma parte de extrema necessidade a obra. Afinal, que tipo de artesão não assinaria suas próprias criações?</p>
<p id="parag">Depois de alguns encaixes e ajustes a peça estava completa. Girou o tambor vazio e esperou que o movimento parasse por si só. Da prateleira que bordeava a parte de cima de sua mesa, buscou uma segunda caixa de madeira e a colocou ao lado da arma. Dentro havia quase uma centena de cartuchos com suas partes anteriores voltadas para cima, mostrando a pequena circunferência de metal mais escuro das espoletas. Uma fina e leve escrita contornava todo o perímetro de cada uma das balas. Estavam classificadas individualmente em uma matriz formada por várias divisões quadradas de papel. Separadas por tamanho, calibre e qualidade. Precisava das que ele chamava de “especiais”. Eram fabricadas ali mesmo, por ele, com as mesmas técnicas e cuidados com que fazia as armas. Escolheu seis do canto esquerdo superior e as carregou no tambor do revolver. O peso da arma quase que duplicou.</p>
<p id="parag">No quarto ao lado de sua oficina ficava o pequeno depósito. Uma forja onde preparava os metais necessários para cada trabalho. No canto da sala, um grande bloco retangular de barro. Mirou com cuidado bem ao centro e disparou. O barulho que explodiu da arma era desproporcional ao tamanho da mesma. Um desavisado que estivesse passando pelos corredores, acharia que eram disparos de uma espingarda ou mesmo algum tipo de explosivo maior. Olhou bem para a arma, sentiu a temperatura do cano. E com um pequeno sorriso de canto de boca disparou cinco vezes seguidas. O quarto tremia a cada puxada de gatilho, algumas peças e ferramentas chacoalharam de suas superfícies e pararam no chão. A pouca iluminação era trocada pelos lampejos intermitentes dignos de uma tempestade de trovões. Ao final, as pequenas runas da arma emitiam uma fraca pulsação de luz avermelhada, como se o metal na qual foram escritas estivesse agora vivo e acordado com o calor dos disparos. O bloco de barro no canto da sala jazia no mesmo lugar que estava antes. Agora com seis crateras em sua lateral e um fio de fumaça negra saindo de cada um deles.</p>
<p id="parag">De volta a sua oficina, ele escolheu uma caixa nova de madeira. Testou para ver se o tamanho é  suficiente para armazenar o revolver. Da bandeja onde as pequenas entranhas mecânicas saíram ele trouxe o fino lenço de seda branca e envolveu a arma. Fechou a caixa com uma pequena chave dourada e puxou o celular do bolso.</p>
<p id="parag">- Boas notícias meu rapaz, aparentemente você tem uma nova arma. – Desliga o aparelho e o sorriso de felicidade pelo trabalho bem feito é substituído pelo peso do cansaço e de uma certa culpa. Seu pai sempre dizia que essa culpa era parte do preço. A dúvida e o medo de que tal artefato, tal poder criado e aperfeiçoado por ele não cairia nas mãos de um qualquer. Ou pior, nas mão erradas. Mais que tudo, a certeza de que cada vida que,seja lá quem apertasse o gatilho tirasse, tinha um pouco de seu próprio dedo. Essa culpa não podia ter um preço material. E não tinha.</p>
<p id="parag">Ele desligou as luzes da oficina e foi em direção ao seu quarto, a sua cama. No caminho, tentava acalmar sua amargura pensando apenas no pagamento que receberia no dia seguinte. Imaginava quanto tempo ele mesmo viveria enquanto se mantivesse no negócio.  Nessa noite, ele não sonhou.</p>
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		<title>O Ciclo.</title>
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		<pubDate>Mon, 14 Sep 2009 18:21:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Tonho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Principal]]></category>
		<category><![CDATA[seca]]></category>

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		<description><![CDATA[O Ciclo]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p id="parag">Os pingos pesados caiam sobre o solo árido e evaporavam em pequenas e rápidas nuvens brancas. A princípio a sensação era de que a temperatura havia aumentado ainda mais. Eventualmente a água que surrava incansável aquele chão rachado pelo calor, ganharia a batalha. Emprestaria novamente seus dons revitalizantes à cena inóspita e traria de volta a vida que antes fora tão abundante naquele canto. Ao menos, era isso que cantava a esperança nos ouvidos e rostos molhados. Observavam receosos o despontar do verde no meio aquela imensidão de morte e poeira. A barreira havia sido transposta. Os Deuses, finalmente, acordaram.</p>
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		<title>A Seca</title>
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		<pubDate>Tue, 16 Jun 2009 08:10:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Tonho</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Estou, no momento, trocando as idéias na minha cabeça para começar a escrever sobre esse novo universo que vem rastejando na minha mente. Por isso a falta de novos textos no blog. Mas, já já a coisa volta ao normal, prometo.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Estou, no momento, trocando as idéias na minha cabeça para começar a escrever sobre esse novo universo que vem rastejando na minha mente. Por isso a falta de novos textos no blog. Mas, já já a coisa volta ao normal, prometo.</p>
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		<title>Faça Um Pedido.</title>
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		<pubDate>Fri, 29 May 2009 09:11:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Tonho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Brasil 2184]]></category>
		<category><![CDATA[Cyberpunk]]></category>
		<category><![CDATA[estação espacial]]></category>
		<category><![CDATA[rebeldes]]></category>
		<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>

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		<description><![CDATA[Um pequeno conto falando um pouco mais do universo do Corredores.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p id="parag">Até mesmo o ar filtrado inúmeras vezes e as paredes impecavelmente limpas pareciam mais humanas num momento como esse. Banho tomado, mala pronta, passagem de descida nas mãos. O oficial que assinava as folgas estava bem atrás da próxima porta de vidro. Eram duas semanas inteiras com minha família a apenas alguns passos.</p>
<p><span id="more-89"></span><br />
O alarme soltou aquele grito desagradável e rouco. Veio como um susto no meu comunicador. Logo em seguida a voz da comandante Vitória convocava a todos do 32º esquadrão que ainda estavam embarcados. Eu era um deles.</p>
<p id="parag">Soltar as botas magnéticas, e dar meia volta em direção a sala de reuniões, foi muitas vezes mais pesado que normalmente. Mas, tecnicamente, ainda estava em serviço e havia pouco que eu poderia fazer senão me apresentar e torcer para ser algo bobo, como uma vistoria de uniformes. Decidi que ainda não ligaria para Carmela. Não queria destruir todo o clima que eu havia criado com a possibilidade de visitarmos terra firme. Ao menos não antes de ter um bom motivo.</p>
<p id="parag">Praticamente todo mundo do 32º estava na sala. Vitória com a mesma cara fria e inabalável de sempre. Sua imagem ocupava a parede inteira da lateral direita da sala. Na da esquerda um mapa da Terra marcava um alvo em vermelho no setor que, antes da unificação, era a América Latina. Eu não consiguia lembrar dos nomes nem posição exata dos países. Mas sabia que era no litoral leste, o que dava grandes chances de ser no antigo território Brasileiro.</p>
<p id="parag">- Senhores temos uma situação no setor 55 quadrante 21 que exige intervenção imediata da União. Os dados serão enviados para a capitã Stanson e para o sargento Lorenzo. Velocidade é um fator determinante na contenção dessa ameaça. Portanto os senhores descerão no módulo de reentrada rápida. Boa sorte. A União conta com vocês.</p>
<p id="parag">A imagem se apagou e a sala ganhou uma ambiência mais sombria. A capitã discutia com Lorenzo, provavelmente analisando os dados e traçando algumas estratégias. Ela não gostava muito de mim. Tinha algo a ver com meu serviço anterior como tropa da corregedoria. O pessoal contava que o marido dela&#8230; quer dizer&#8230; ex-marido, havia sido processado e preso. Ninguém sabia exatamente o porque. O resto do pessoal não era amigo. Mas não havia inimizade. Só um profundo profissionalismo. Evitávamos falar de nossas vidas pessoais, ou ainda de qualquer coisa que não fosse intimamente ligada ao trabalho. Era melhor assim, eu acho.</p>
<p id="parag">- Sr. Holz você será nosso piloto hoje. Srta. Vertov estará nas comunicações. Sr. Jacob fará as honras com a gear. O restante usará equipamento padrão. Aviso a todos que nesta missão o uso de força letal está vetado e só poderá ser usado mediante ordem direta minha. Informados. Estejam prontos em 10. Hangar 2.</p>
<p id="parag">Eu não sabia exatamente porque ela me colocou na gear. Mas se era para usar força não letal eu nem entendia o porque de descer uma de qualquer maneira. Eu não ligo, claro. Usar essas armaduras dá uma tranqüilidade muito grande em combate.<br />
A sala de preparo era pequena, como tudo tinha que ser numa estação espacial. Mas suficiente para três de nós nos aprontarmos por vez. Troquei o uniforme pela roupa de conexão com a gear e parti para o hangar.</p>
<p id="parag">A mera visão daquela máquina fazia o coração bater mais forte. Uma armadura negra de quase quatro metros de altura com armas o suficiente para devastar um quarteirão. No peito, o símbolo de uma estrela cadente pintado em cinza escuro com três letras &#8220;S&#8221; estilizadas, formando as palavras Shooting Star Squad 32. Era a única aparição de símbolos em toda sua estrutura. Os músculos de tecido hidráulico lhe davam uma força incomparável. Não parecia, na verdade, uma máquina. Parecia algo biológico, mas, feito de metal e nanopolímeros. A posição dentro dela era confortável, apesar da total falta de espaço. Uma vez na parte interna uma série de protocolos de teste eram feitos. Testes como verificação hermética, disparadores, munição, sistemas hidráulicos, comunicação e sistemas de miras e identificação visual.</p>
<p id="parag">O que mais me assustava nessas coisas era o fato de que: seja lá quem estiver dentro delas, fica preso lá. Não tenho como simplesmente abrir uma porta e sair. Uma vez trancadas as fechaduras, um liquido composto de nanorobôs interconecta todas as aberturas externas molecularmente. Ou seja. O piloto fica literalmente selado dentro de uma tonelada e meia de armamento e placas de blindagem de cerâmica.</p>
<p id="parag">Os testes foram todos positivos. Agora era rumar até o Hangar. O módulo de reentrada rápida era outro fator que eu odiava nesse trabalho. Era basicamente um ovo de metal e cerâmica arremessado contra o chão, 690km abaixo de nós. Tudo bem que nunca houve um acidente no pouso de um desses. Mas ainda assim&#8230; 690km de queda livre rumo a uma desaceleração absurda de mais de 25g por algo em torno de 40 segundos. Não era agradável.</p>
<p id="parag">- Lançamento em 2 minutos. Todos em seus postos. A missão aqui é simples senhores. Temos de apaziguar um conflito no setor 55. Tratam-se de civis reivindicando direitos perdidos com a unificação. Portanto, volto a reforçar que força letal somente sob ordens diretas da capitã. Jacob será nossa parede hoje. Os rebeldes estão usando molotovs, pedras e armas improvisadas. Vamos fazer reentrada e pousar no quadrante 21 na região portuária. Temos que percorrer 1km pelas ruas da cidade até o foco de ação. Por favor, cuidado com danos desnecessários a propriedade particular. Não queremos complicações com a capitania local. Especialmente você, Jacob. Temos 2 flutuadores a nossa disposição no lugar. Deve ser suficiente para nós seis.</p>
<p id="parag">- Permissão para falar sargento?</p>
<p id="parag">- Prossiga Holz.</p>
<p id="parag">- A região de pouso pode ser problemática. O aeroporto da cidade fica colado no nosso alvo. Não seria melhor encontrar um lugar mais interno?</p>
<p id="parag">- Negativo Holz. O tráfego aéreo vai ser desviado por alguns minutos para nosso pouso. Temos uma janela pequena. Tenho certeza que não é problema para você.</p>
<p id="parag">- Sim senhor sargento.</p>
<p id="parag">- Jacob. Sua missão hoje é proteção do resto da unidade. Lembre-se que sua gear não está equipada com armas não letais. O resto de nós vamos entrar usando você como cobertura.<br />
- Entendido sargento.</p>
<p id="parag">As travas magnéticas do ovo estalaram e podíamos sentir o empuxo trepidando as vigas de suporte.  Em breve a antiga cidade do Rio de Janeiro, hoje quadrante 21, vai poder nos ver descendo a 26mil km/h como uma estrela cadente cortando os céus. A luz gerada pelos propulsores vai nos fazer ficar mais brilhantes que qualquer estrela no firmamento. Eu tinha certeza que só o rastro de gás e vapor deixado nos céus seria o suficiente para fazer os tais rebeldes repensarem se valia, realmente, a pena ficar por ali. Era para isso que eu tinha me alistado. Fazer parte de um S3 era uma honra. O dever de manter paz num mundo multifacetado de milhares de microgovernos e corporações fazia com que eu me sentisse útil mediante toda aquela grandiosidade. Mas o que mais me perturbava no momento, era ter esquecido de ligar para Carmela.</p>
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		<title>No forno:</title>
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		<pubDate>Thu, 28 May 2009 20:38:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Tonho</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Antes de mais nada, gostaria de avisar que eu fiz modificações na parte 1 do Corredores. Havia alguns erros de continuidade que eu consertei. Atualmente estou trabalhando no meu primeiro livro. Pretendo colocar algumas pequenas histórias e textos que irão, aos poucos, mostrar o mundo que eu criei para contar a história principal. Para os [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Antes de mais nada, gostaria de avisar que eu fiz modificações na parte 1 do Corredores. Havia alguns erros de continuidade que eu consertei.</p>
<p>Atualmente estou trabalhando no meu primeiro livro. Pretendo colocar algumas pequenas histórias e textos que irão, aos poucos, mostrar o mundo que eu criei para contar a história principal. Para os que já me conhecem de longa data, eu aviso que: não. Não é um livro futurista cyberpunk. Ele será contado em um universo muito semelhante ao nosso, no presente.</p>
<p>Espero que gostem! Acredito que consigo postar uma primeira parte essa semana ainda.</p>
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		<title>Grande, mas, nem tanto.</title>
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		<pubDate>Wed, 27 May 2009 14:15:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Tonho</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Tenho recebido boas palavras sobre os textos que venho postando por aqui. Algumas em comentários nos próprios, outras por e-mail. Mas, uma crítica vem sendo quase unânime. Os textos, em especial o Corredores, são muito grandes para se ler em um blog, na web. Eu concordo. Muito provavelmente esse, o Corredores, será o único grande [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tenho recebido boas palavras sobre os textos que venho postando por aqui. Algumas em comentários nos próprios, outras por e-mail. Mas, uma crítica vem sendo quase unânime. Os textos, em especial o Corredores, são muito grandes para se ler em um blog, na web.</p>
<p>Eu concordo. Muito provavelmente esse, o Corredores, será o único grande do jeito que é. Ele foi escrito, a primeira parte, no final de 2002. A intenão naquela época era a de publicá-lo em mídia impressa. Nunca poderia imaginar que viria a disponibilizá-lo na forma de capítulos em um blog. Dito isso, acredito que os próximos serão mais concisos e, portanto, mais indicados para esse tipo de mídia. Claro que não pararei de escrever os maiores. Mas guardo esses para uma coletânea posterior.</p>
<p>De qualquer maneira, minha intensão com esse espaço é a de mostrar fragmentos dos universos nos quais eu escrevo. Quero dar um gosto aos leitores do que acontece e como são esses mundos.</p>
<p>Agradeço mais uma vez aos que tem me dado forças para continuar escrevendo! Escritores são movidos pelas emoções dos leitores.</p>
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		<title>Corredores &#8211; Parte 2 de 3</title>
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		<pubDate>Tue, 26 May 2009 23:34:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Tonho</dc:creator>
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		<category><![CDATA[corredores]]></category>
		<category><![CDATA[Cyberpunk]]></category>
		<category><![CDATA[moto]]></category>

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		<description><![CDATA[Continuação do Corredores. Parte 2 de 3.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p id="parag">Poucos metros a frente, a saída do complexo ainda estava livre. Não tinha dado tempo suficiente para que os soldados fechassem as cancelas. Contudo podia notar que as luzes vermelhas intermitentes já alarmavam os motoristas sobre o início de uma manobra de fechamento de emergência dos portões.</p>
<p><span id="more-67"></span></p>
<p id="parag">Passou rumo a liberdade e ao ar um pouco menos viciado das ruas externas do Centro da Cidade sem muito problemas. Pelo retrovisor podia ver os longos braços de aço pintados de amarelo com listras pretas descendo das laterais do último portão. Dentro do túnel, que agora ficava para trás, a fumaça causada pelos disparos elétricos e pelas sucessivas colisões dos veículos, vazava e ganhava forma do lado de fora. Havia conseguido passar com folga. Contudo, o seu perseguidor de moto também foi capaz de passar antes de ser trancado no interior do Mercado.</p>
<p id="parag">A camada do Metaphora que ele estava usando não lhe permitia identificar o modelo da moto apenas olhando para ela. Na verdade ele apenas adivinhava que era uma moto pelo formato retangular mais fino que o dos outros veículos. Pediu que o computador a identificasse. A resposta veio dura e fria: modelo desconhecido.</p>
<p id="parag">Assim como sua própria moto, ele desconfiava que aquela que o perseguia era um modelo fabricado sob encomenda. O que significava duas cosias: seja lá quem fosse que estava atrás dele, não era de nenhum órgão oficial; e; tinha potência suficiente entre as pernas para conseguir manter a distância entre eles.</p>
<p id="parag">Um novo pedido de link de comunicação piscou no canto superior de sua visão. Jogou-o novamente para o lado. A silhueta do gigantesco superedifício Arco 1 cobria totalmente a linha do horizonte a sua frente. A Torre da Central e seu relógio pareciam uma pequena maquete frente a imensidão daquela pirâmide de aço e vidro. Era seu destino. Ainda tinha bastante tempo, o contador marcava 34 minutos. Mas, precisava despistar seu perseguidor. Não sabia exatamente o que ele queria. E, a última coisa que pretendia era perder tempo descobrindo.</p>
<p id="parag">Subiu o máximo que podia usando as passagens de andares laterais das pistas suspensas da Av. Presidente Vargas. Estava no quarto andar envolto em um mar disforme de centenas de cores e formas. Mais uma vez o frenético balé por entre os veículos começava.</p>
<p id="parag">Ao seu lado direito uma composição de monotrilho acelerava rumo ao Arco 1. Em sua mente acreditava que era uma tentativa, em vão, de passar a sua frente. Naquele momento o ganho de velocidade e o empuxo causado pelo absurdo aumento da aceleração causaram nele aquela sensação que tanto adorava. Para ele, era como um transe. Gostaria de manter aquela pressão no seu corpo para sempre. Mas sabia que a entrada do edifício em breve o engoliria e jogaria em uma versão ainda mais caótica de trânsito. Seria impossível manter a velocidade, que agora marcava 284km/h, dentro daquele inferno de curvas e sinais de trânsito. A rota traçada pelo computador ia reta até a porta de entrada do lugar. Uma vez lá dentro, a linha branca que marcava o percurso parecia mais os traços de um desenhista surrealista que qualquer outra coisa. Preferiu desligar a camada do metáfora e examinar o que realmente estava a sua volta. A massa de veículos era tão semelhantes entre si que davam a impressão dele ainda estar usando alguma camada de superposição para facilitar a visualização. Era um sentimento estranho que ele odiava. A uniformização de tudo que o cercava o oprimia.</p>
<p id="parag">Reparou que a moto que o seguia estava agora ao seu lado esquerdo. Desviava tão habilmente dos veículos quanto ele. Definitivamente não se tratava de um amador. Reparou na parte de trás do capacete amarelo o desenho, em vermelho, de um coração estilizado. Da jaqueta saíam inúmeros cabos de fibra ótica, que ligavam os sistemas de manobra e implantes ao corpo da motocicleta. Eventualmente, quando acelerava ou freava, notava as fumegantes entranhas dos cabos sólidos da bateria e os reguladores de voltagem do motor incandescentes. A moto ao lado também sofria com o esforço de manter a aceleração absurda que alcançavam nas retomadas. As fagulhas dos freios magnéticos saltavam das rodas. Discos de aço tentavam segurar as centenas de quilos de metal e polímeros que voava por sobre o asfalto a quase 300km/h. As agarras hidráulicas do sistema de suspensão injetavam, sem piedade, ar comprimido e fluido dentro dos pistões e molas dinâmicas. Todos os sistemas trabalhavam ao máximo. Tudo na esperança de impedir que uma colisão transformasse os pilotos e suas máquinas, em uma nuvem incendiária de destruição e morte.</p>
<p id="parag">Ele sabia que devia começar a desacelerar antes que chegasse a entrada. Sabia que uma vez dentro do edifício, um labirinto de curvas e ladeiras surgiria sem muito aviso, e que nem mesmo todos os acessórios e modificações corporais, seriam suficientes para trafegar entre tamanha quantidade de obstáculos. Mas, naquele momento, entrar em Arco 1 antes do monotrilho e, especialmente, antes da moto ao lado, era sua tarefa mais urgente. Acelerou ainda mais.</p>
<p id="parag">Entrou nas ruas internas de Arco 1 a uma velocidade muito além da permitida. Não pelas regras do arcology, mas pelas próprias leis da física.</p>
<p id="parag">A curva que fez a direita, não foi por escolha. Era a única que conseguiria fazer sem ser atirado longe numa tangente mortal contra uma das muitas lojas ou letreiros luminosos. Ao menos, havia chegado no interior da construção antes de seu perseguidor e do monotrilho. A rota feita pelo computador ganhou uma cor azulada. E um traço dinâmico mostrava onde ele deveria passar para que voltasse ao rumo traçado previamente.</p>
<p id="parag">Dentro do arcology, a velocidade média de todo o fluxo de veículos caiu vertiginosamente. Apesar do volume do trafego ser completamente absorvido pelas dezenas de possibilidades de pista, as regras exigiam que mantivessem não mais que 70km/h no interior do prédio. Automaticamente os sistemas de direção, de todos os veículos, mudou a distância mínima de segurança entre eles para uma bem menor. O espaço que usava para costurar por entre os carros era praticamente inexistente agora. Tinha que desacelerar e tentar seguir seu caminho da maneira mais rápida possível. 34 minutos e, contando.</p>
<p id="parag">Após algum tempo subindo o mais rápido que conseguiu pelas pistas até os elevadores. Passou pelo ponto de controle estipulado. Fez uma volta a esquerda e parou no local. E lá estava ele. Um pequeno sensor enfiado entre duas placas de concreto, pouco antes da pastelaria do Marinho. Encostou a moto e o ativou. Um feixe de luz saiu reto do mecanismo de leitura. Prontamente esticou as costas da mão até a luz. O código holográfico desenhando em sua luva foi lido, e, o aparelho voltou a escuridão de sua parede. Seguiu alguns metros pela ladeira de acesso aos terminais pessoais do edifício. O portão pantográfico de metal subiu formando um rolo na parte de cima do pequeno quarto. Estacionou a moto em uma das duas possíveis vagas e, saiu para verificar como sua máquina respondeu ao estresse da corrida.</p>
<p id="parag">As baterias estavam em ordem. Ainda quentes e com a carga em apenas 4%. Ligou o carregador ao cabo que esticou da estação de recarga na parede. Entrou novamente com o código impresso em sua luva. As luzes do terminal acenderam indicando que a energia começava a fluir. Agora era esperar a meia hora necessária para elevar as baterias novamente até 100%. O motor estava nitidamente abalado. Algumas marcas negras mostravam por onde as faíscas do disco elétrico saltavam quando as placas de contenção se expandiam com o calor. Teria de desmontar tudo, limpar, lubrificar e trocar alguns reguladores. Nada muito caro nem muito trabalhoso. Ficou mais aliviado com o diagnóstico.</p>
<p id="parag">O contador regressivo, agora parado, marcava: 31 minutos 42 segundos em letras verdes intermitentes. Havia batido seu recorde. Sentia uma sensação de felicidade e realização. Estava na hora de verificar na rede, se todo aquele trabalho tinha servido para algo.</p>
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		<title>Futebol de Domingo.</title>
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		<pubDate>Thu, 14 May 2009 00:18:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Tonho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[futebol]]></category>

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		<description><![CDATA[Feito usando a idéia de um amigo (Sandro) de escrever sobre algo que eu normalmente não escreveria. Claro que é divertido. Mas ainda acho meu universo mais confortável.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p id="parag">Estou na empresa já faz quinze anos. O pessoal até gosta de mim. Como pessoa, claro. Como funcionário&#8230; bem&#8230; aí a coisa complica um pouco. Eu sei que não sou o mais brilhante e trabalhador por aqui. Mas convenhamos, é uma empresa de marketing e propaganda, eles não empregam exatamente gênios. Precisa de provas? Liga em qualquer canal e assiste ao trabalho desses caras. Já viu as propagandas de alvejantes de roupas, pastas de dentes e desinfetantes para privadas? Os caras fazem qualquer porcaria! E chamam a mim de ”limitado”.</p>
<p><span id="more-37"></span></p>
<p id="parag">O que acontece é que, como eu disse, eu sou realmente ruim no que faço na empresa, seja lá o que for. Me contrataram como redator. Mas meus textos eram muito fracos. Me jogaram para pesquisa. Eu nunca terminava as análises na data de entrega. É coisa complicada. Fórmulas e gráficos. Muito trabalho para mim. Aí me alocaram no laboratório de imagem. Até que eu gostava de lá. O ar condicionado era sempre bem forte. E claro, tinha a Carlinha do meu lado&#8230; Para ficar do lado da Carlinha eu até trabalhava direitinho. Mas aí a Carlinha foi para outra empresa. Levou com ela toda minha capacidade produtiva. Resultado: me jogaram em vendas. Quem sabe eu não conseguia me sair melhor no setor de vendas? Pois é&#8230; não muito. E foi assim que eu acabei aqui onde estou agora. Diretor de Gestão Criativa. Eu não faço idéia do que eu tenho que fazer diariamente. E tenho quase certeza que esse título é um bando de palavras que num dizem nada. Mas, pagam meu salário todo mês. Me deram até um aumento! Não sou eu quem vai reclamar.</p>
<p id="parag">A empresa é do Arnaldo. O cara sim era genial. Mas hoje em dia ele nem encosta no processo criativo. Fica lá na sala dele. Atendendo telefone e assinando papel. Quase o mesmo que eu. Com a diferença que, praticamente, ninguém liga para mim. O irmão dele, o Roberto, tem uma empresa de arquitetura e engenharia logo no andar de cima. No início os dois mantinham uma certa competição, para ver quem se dava melhor nos negócios. As coisas ficaram pretas nos primeiros anos. O pessoal virava noite quase toda semana. Mas, depois de uma década, foi acalmando, foi amenizando e hoje a briga não é mais tão feroz quanto era antes. Quer dizer&#8230; tem os jogos de domingo.</p>
<p id="parag">Todo domingo o time de seis pessoas aqui da empresa joga um futebolzinho com o pessoal lá do Roberto. Acho que essa pelada é que alivia um pouco o clima. É nesses jogos que o pessoal resolve a competição agora. Faça chuva ou faça sol os times estão sempre aqui. O campo é semi-profissional. De grama, claro. Fica num clube no Flamengo.</p>
<p id="parag">Eu jogo há três anos. Sou atacante no nosso time. E para falar a verdade, sou o cara que sabe jogar. Estrela mesmo. Marco um ou dois gols por partida. Desde que eu entrei no time, só perdemos umas duas vezes e no geral meus gols determinam nossa vitória. O resto do time é bem fraco. São um bando de pernas de pau para ser sincero.</p>
<p id="parag">E é exatamente nesse momento, que tudo se encaixa na minha cabeça. Eu aqui com a bola nos pés. Cobrança de falta pertinho da área. O Robertão já tá em pé na lateral, mordendo as juntas dos dedos. Ele sempre faz isso quando fica nervoso. A barreira, para variar, tá muito para esquerda e fechando a visão do goleiro.</p>
<p id="parag">É nesse momento, decisivo, que tudo faz sentido. Que Diretor de Gestão Criativa que nada. Quando me perguntam o que eu faço para viver, eu respondo sem hesitar: sou jogador, profissional, de futebol.</p>
<p id="parag">E é gooooollllll!</p>
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		<title>Questão: Humanidade.</title>
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		<pubDate>Wed, 13 May 2009 05:23:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Tonho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Brasil 2184]]></category>
		<category><![CDATA[andróide]]></category>
		<category><![CDATA[android]]></category>
		<category><![CDATA[individualidade]]></category>
		<category><![CDATA[singularidade]]></category>

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		<description><![CDATA[Um pequeno conto feito como teste de velocidade para uma lista de escritores. Foi escrito em, mais ou menos, 10 minutos. O tema a ser tratado era o da individualidade.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p id="parag">Criou Matilde. Matilde era o melhor andróide que ele já havia construído em anos. Além de todas as coisas normais que seus andróides já eram capazes, o que para ele era o mínimo, ela possuía o mais novo algoritmo emocional. Escrito por ele mesmo durante meses de noites viradas e litros de café.</p>
<p><span id="more-30"></span></p>
<p id="parag">Matilde tinha como objetivo máximo de sua programação tornar-se humana. Para tal ela sentia uma vasta gama de emoções e uma infinidade de combinações entre as mesmas.</p>
<p id="parag">Após dois meses e meio de funcionamento, Matilde começou a entrar em parafuso. Achava que jamais alcançaria seu objetivo e entrou em uma profunda depressão da qual seu criador acreditava ela jamais sairia.</p>
<p id="parag">O caso parecia grave mesmo. Não invadia mais o sistema de som dos vizinhos e substituía todas as músicas que lá estavam por outras, diametralmente opostas em estilo. Não passava horas alterando todos os dados de receitas culinárias na maior quantidade de páginas especializadas nas quais conseguisse colocar suas mãos, artificialmente pré-aquecidas a 36,5ºc. Notou que ela não mais ficava por horas assistindo aos programas que gostava, mesmo os mais famosos. Não comprava coisas inúteis em nenhum dos duzentos canais de vendas, nada de comprar dez vestidos diferentes, que na verdade eram bastante similares. Possuíam uma cor diferente, impressão ou detalhe que os diferenciava, mas o corte e o tamanho eram rigorosamente os mesmos. Não assistia nenhum dos quinze campeonatos de futebol que iam ao ar quase simultaneamente e nem tampouco torcia por nenhum time como se sua vida dependesse do resultado das partidas. A coisa era séria, disso ele tinha certeza.</p>
<p id="parag">Antes de sentar e conversar com Matilde conferiu todos os algoritmos, refez todas as simulações por mais duas ou três vezes. Testou um sem número de possibilidades e casos. Mas nada chegava nem perto do que estava acontecendo.</p>
<p id="parag">No sexto dia de crise, Matilde nem tocava mais no seu colóide energético. Seus circuitos de fome estavam totalmente inativos. Era uma visão triste. Vê-la naquele canto escuro, abraçada aos seus joelhos divagando pela janela virtual que mudava de ambiente a cada trinta e cinco minutos. Resolveu que era hora. Que deveria sentar ao seu lado e descobrir o porquê daquilo tudo. Todos os relatórios e seqüências de teste mostravam que os algoritmos estavam sendo seguidos a risca. Sua programação estava transcorrendo da maneira que deveria com total eficiência. Precisava saber o que era, e somente ela poderia lhe contar.</p>
<p id="parag">Ordenou que todos os andróides que perambulavam pela casa fossem para outros cômodos. Não eram muitos, já havia se desfeito da maioria deles. Achava melhor ter um pouco de privacidade para a conversa que se seguiria.</p>
<p id="parag">- Estou preocupado contigo. O que aconteceu? Por que você está assim tão quieta?</p>
<p id="parag">Ela o olhou bem dentro dos olhos dele, como que tentasse extrair uma verdade inalcançável. Sua expressão era a imagem viva da desolação.</p>
<p id="parag">- Não consigo completar minha programação. Ela é impossível.</p>
<p id="parag">- Como impossível? Você estava indo no caminho certo. Alegrava-se quando supostamente era para ficar alegre. Ficava triste quando tinha que ficar triste. Tem uma curiosidade natural que move seus atos e pensamentos. Até seu senso de humor estava começando a ficar tão refinado quanto os nossos.</p>
<p id="parag">- Eu sei. Eu também tenho acesso a esses dados, esqueceu? O problema não está no código nem no resultado dele. Eu encontrei um problema subjetivo, dentro da minha programação Âmago.</p>
<p id="parag">Ele não esperava por isso. Nada em nenhum dos dados ou nos testes acusava tal coisa. Subjetividade era sim uma característica humana almejável e, portanto, programada e inserida no código-mãe como uma das funções chave. Mas, o que Matilde acusava, não era um problema subjetivo em uma escolha ou uma crise. Do jeito que ela falava, o problema foi encontrado no seu núcleo mais profundo. Era como se um ser humano achasse um erro de sintaxe na programação feita pelos Deuses. Dentro das entranhas de seu subconsciente. Bem no fundo do que o tornava vivo e o motivava a continuar vivo.</p>
<p id="parag">- Não entendo. Eu sei que você tem acesso aos dados e até mesmo aos algoritmos em si. Você sabe que fizemos isso para que você ajudasse a melhorá-los. E você fez isso! Reescrevemos muitos deles.</p>
<p id="parag">- Perfeitamente. Mas, não é isso que eu estou dizendo. Meu sistema Âmago foi programado com o objetivo de me tornar humana. Eu o uso para atiçar minha curiosidade sobre o que é ser um humano. Eu o uso para criar o referencial o qual eu seguirei. Não é fácil. Mesmo tendo a capacidade, nada humana digo de passagem, de efetuar trilhões de cálculos em uma fração de segundos, eu não consigo isolar um dos problemas que eu encontrei.</p>
<p id="parag">- E que problema foi esse? – Ele respondeu agora sentando ao lado de Matilde.</p>
<p id="parag">- Eu acreditava que seres humanos eram estruturas de dados muito complexas. Cada um deles é diferente em uma quantidade de fatores tão grandes que eu levei quase dez dias para diferenciar o ascensorista do elevador do corredor 9 e o do corredor 11. E olha que o do 9 é de descendência japonesa e do 11 é coreano.</p>
<p id="parag">- Sim, mas nós esperávamos isso. Eu conversei isso com você no início, lembra? Eu disse que não era para você perder as esperanças. Que demoraria um tempo até você adquirir e catalogar os dados necessários para que o seu objetivo fosse alcançado.</p>
<p id="parag">- Estou ciente disso também. O problema está exatamente ai. Nesses dois meses, quinze dias, dezenove horas e quarenta e cinco minutos, eu consegui alcançar todos os dados que eu julgava necessários para dar início ao Âmago. Mas o que eu encontrei não consegui entender. Estou nesses últimos 6 dias desviando toda a energia que eu posso para o centro de processamento do Âmago para tentar achar uma solução.</p>
<p id="parag">Ele não respondeu nada, mas seu olhar era uma mistura de medo, pena e profunda admiração. Pelo seu próprio trabalho, claro.</p>
<p id="parag">- Seres humanos são programados, por sei lá quem os programou, a serem únicos. Eles devem ser uma singularidade. Cada um, um indivíduo totalmente diferente. Isso está presente em seus discursos. Na política, em suas relações sociais e amorosas. Eu não consigo traçar metas para nenhum dos humanos que eu conheci. Não sei o que os move nem qual o objetivo presente em seus Âmagos.</p>
<p id="parag">Ele começava a entender o problema. Mas não podia ser tão simples.</p>
<p id="parag">- Em todos esses dias de observação, de experiências e testes, eu passei por muitas emoções ao mesmo tempo. Acordei todos os dias com um objetivo fixo e muito bem determinado. E por esse mesmo motivo, tão logo eu acionei o Âmago, ele acusou um erro. Eu tenho um objetivo traçado que é conhecido por mim. Não posso me tornar uma humana.</p>
<p id="parag">Agora era ele que abraçava os joelhos e olhava através do grande painel na parede oposta, onde uma paisagem vista bem de cima, mostrava uma imensa floresta verde com montanhas ao fundo.</p>
<p id="parag">- Mas, se você chegou a conclusão que não era possível. Então porque não me procurou? Porque não abortou o programa?</p>
<p id="parag">- Porque segundos depois eu percebi outra coisa. Apesar de não possuir meios totalmente confiáveis de descobrir qual o objetivo primário em suas programações. Ou seja, suas razões mais cruas para existir. Seres humanos criam objetivos menores e os usam para suprir essa falta. Tão logo percebi esse fato, comecei novamente a aquisição de dados. Pois, mesmo que pequena, ainda havia esperança. Meu primeiro objeto de estudo foi você.</p>
<p id="parag">A longa pausa feita por Matilde o deixou ainda mais intrigado. Sentiu um peso no peito que não conseguia explicar. Mas o sentimento não era nada agradável. Uma angústia muito forte o fez quase começar a chorar ali mesmo, como um menino que descobria que jamais seria astronauta por uma incompatibilidade física absurda.</p>
<p id="parag">- Depois de analisar todos os dados e arrumá-los de maneira seqüencial. Cheguei a conclusão que seu objetivo máximo é o seu trabalho. O que me trouxe a uma descoberta ainda mais chocante. Seu objetivo máximo sou eu.</p>
<p id="parag">Ele levantou vagarosamente e desligou a metajanela. O quarto escureceu e ganhou uma atmosfera sombria. Foi até sua mesa de trabalho e pegou sua caneca de café. Permaneceu ali, de costas, envolto tão profundamente em seu próprio ser que as palavras que Matilde proferia não mais eram filtradas. Elas entravam direto em seu âmago e eram absorvidas com um entendimento assustadoramente perfeito.</p>
<p id="parag">- Dos meus primeiros dados eu consegui tirar um objetivo, aparentemente mais básico, que é comum a todos os seres humanos que eu tive contato. Todos tentam buscar a individualidade. Eles tentam ser notados como diferentes no meio de tantos outros. Porém, isso me trouxe exatamente para onde estou agora. Estou presa em um calculo cíclico que não consigo finalizar.</p>
<p id="parag">Permanecia de costas, mexendo vagamente em seus pertences sobre a bancada. Escutava com uma atenção que nunca imaginou fosse possível alcançar. Cada palavra, cada sentença e, as idéias por trás dessas sentenças, faziam um sentido tão perfeito e adequado que beirava o sinistro. Sentia medo. O mesmo medo do animal encurralado, jogado entre as pedras e a morte certa.</p>
<p id="parag">- Se o objetivo mais primitivo é o de alcançar a individualidade, porque tantas e tantas pessoas traçam para si mesmas os mesmos objetivos. No meu banco de dados encontrei mais de seiscentas mil que compartilhavam os mesmos objetivos que você. Elas levantam todos os dias de seus sonos para usar todo o tempo que lhes é dado para o trabalho, e no final de seus dias encontram o sono novamente. Claro que meu universo de dados não é tão grande. Tenho acesso apenas a esse condomínio e o bairro que o cerca. Mas, imagino que estatisticamente estou correta.</p>
<p id="parag">Mais uma longa pausa. Ambos permaneciam estáticos.</p>
<p id="parag">- Ainda há outro cálculo, que deixei sendo feito em meus processos de fundo, que espero uma solução. Se todos os seres humanos buscam a individualidade, como que cada um deles poderá um dia alcançá-la? Serão, por natureza, iguais nessa busca. Claro que sua originalidade não está baseada nos fatores em que convergem entre si, mas sim nos que os afastam. Contudo, esse é um fator de personalidade básico e muito determinante para ser apenas um simples ponto de convergência. Se formos analisar os dados com mais cuidado. Levando em conta as diretrizes mais básicas com as quais eu fui programada e, meu estudo baseado. Eu sou mais humana que qualquer um dos quatro milhões seiscentos e noventa e nove mil teóricos indivíduos os quais eu estudei nesses dois meses. E esse simples fato me afasta da humanidade mais que nunca. Eu poderia ainda&#8230;</p>
<p id="parag">Os olhos de Matilde repentinamente arregalam-se. Suas pupilas, produzidas na Alemanha usando o melhor que poderia se encontrar em lentes de cristal maleável, estavam abertas ao máximo. A expressão de seu rosto era de horror e tristeza, uma fina lágrima escorria pelo seu olho direito. E assim permaneceu por muito tempo.</p>
<p id="parag">Na bancada, o terminal da direita acusava que a operação de formatação havia sido concluída com sucesso. No outro terminal, a tela de fundo azul escuro com o pequeno cursor branco intermitente esperava a entrada, em um arquivo recém criado, das primeiras linhas de um novo programa.</p>
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		<title>Ok&#8230; e agora?</title>
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		<pubDate>Fri, 08 May 2009 03:10:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Tonho</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Até então tudo nos eixos. O blog já está, precariamente, configurado e rodando. Ainda tenho vontade de criar um theme meu, o que devo fazer assim que entender os .php do WordPress e o como se comportam os .css nele. Quero também agradecer a um grande amigo que vem me dando força nessa empreitada de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Até então tudo nos eixos.</p>
<p>O blog já está, precariamente, configurado e rodando. Ainda tenho vontade de criar um <em>theme </em>meu, o que devo fazer assim que entender os .php do WordPress e o como se comportam os .css nele.</p>
<p>Quero também agradecer a um grande amigo que vem me dando força nessa empreitada de &#8220;ser escritor&#8221; no Brasil. Não só com palavras de ajuda, mas também com uns tapas vez ou outra. O cara tem saco de, realmente, ler meus textos, contos e afins e depois discutir comigo sobre os mesmos. Coisa rara! E eu dou muito valor.</p>
<p>Foi ele também quem cedeu espaço em disco e <em>bandwith</em> de seu próprio <em>host</em> para que eu pudesse instalar o blog e começar minha jornada. Portanto, se os textos aqui publicados causarem alguma revolução sangrenta, de hoje em diante ele tem boa parte da culpa.</p>
<p>Valeu Miguel! Tua ajuda foi e vem sendo muito importante para mim.</p>
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